quinta-feira, 15 de maio de 2008
ELE É O CEGO ADERALDO!
O Cego Aderaldo, personagem da mitologia nordestina, deve a um folheto de cordel muito do seu prestígio lendário. Aderaldo Ferreira de Araújo não nasceu cego. Perdeu as “vistas” aos dezoito anos, num desastre de trem na estrada de Baturité. Era o maquinista. A partir daí adotou a profissão errante dos aedos. Nesta condição o folclorista Leonardo Mota o encontra em princípios dos anos de 1920. E anota a partir de depoimento de Aderaldo a versão para a sua cegueira. Ao citar algumas estrofes do velho trovador Luiz Dantas Quesado, que davam conta de coisas impossíveis, Mota ouviu e anotou estas duas estrofes, imaginando-as saídas da cachola de Aderaldo:
“Só nos falta vê agora
Dá carrapato em farinha,
Cobra com bicho-de-pé,
Foice metida em bainha,
Caçote criá bigode,
Tarrafa feita sem linha.
Muito breve há de se vê
Pisá-se vento em pilão,
Botá freio em Caranguejo,
Fazê de gelo carvão,
Carregá água em balaio,
Burro subi em balão”. 
Mota com Jacó Passarinho e Aderaldo (com a rabeca)
Impressionado, Mota depõe em Cantadores (1921): “Se o cantador cego Aderaldo foi, inquestionavelmente, o de melhor voz de quantos com quem hei tratado, está, ainda, entre os de mais apreciável veia poética Estas duas estrofes, contudo, segundo o poeta popular Arievaldo, são de Leandro Gomes de Barros, do folheto O Galo Mysterioso, Marido da Galinha de Dentes, reeditado pela Editora Queima-Bucha de Mossoró.
Entretanto, é ao poeta de bancada Firmino Teixeira do Amaral que Aderaldo deve boa parte da fama amealhada. A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, dada por muitos como acontecida, foi composta por Firmino, então funcionário da Editora Guajarina, de Belém do Pará, antes de 1920, pois já é citada no livro de Leonardo Mota, pelo cantador cearense Jacó Passarinho. Estão nesta peleja os impagáveis trava-línguas que a memória coletiva absorveu. Os cantadores são indicados por letras iniciais de seus nomes de guerra. Aderaldo:A; Zé Pretinho: P. Então, vamos às amostras:
“P.: Eu vou mudar de toada
Pra uma que mete medo -
Nunca encontrei cantador
Que desmanchasse este enredo:
É um dedo, é um dado, é um dia
É um dia, é um dado, é um dedo!
C.: Zé Preto, este teu enredo
Te serve de zombaria:
Tu hoje cegas de raiva
E o diabo será teu guia -
É um dia é um dedo, é um dado
É um dado, é um dedo, é um dia!
P. : Cego, respondeste bem,
Como quem fosse estudado!
Eu, também, da minha parte,
Canto versos aprumado –
É um dado, é um dia, é um dedo,
É um dedo, é um dia, é um dado!
C.: Vamos lá, seu Zé Pretinho,
Porque eu já perdi o medo:
Sou bravo como um leão,
Sou forte como um penedo -
É um dedo, é um dado, é um dia
É um dia, é um dado, é um dedo!”
Zé Pretinho, pra sua infelicidade, pede, então, a Aderaldo que puxe uma bela toada. E o Cego se sai com esta:
“C.: Amigo José Pretinho,
Eu nem sei o que será
De você depois da luta -
Você vencido já está!
Quem a paca cara compra
Paca cara pagará!
P.: Cego, eu estou apertado
Que só um pinto no ovo!
Estás cantando aprumado
E satisfazendo o povo -
Mas esse tema da paca
Por favor, diga de novo!
C.: Disse uma vez, digo dez -
No cantar não tenho pompa
Presentemente, não acho
Quem o meu mapa me rompa -
Pagará a paca cara
Quem a paca cara compra!
P.: Cego, teu peito é de aço,
Foi bom ferreiro que fez -
Não pensei que cego tinha
No verso tal rapidez!
Cego, se não for maçada,
Repete a paca outra vez!
C.: Arre! Que tanta pergunta
Desse preto Capivara!
Não há quem cuspa pra cima
Que não lhe caia na cara -
Quem a paca cara compra
Pagará a paca cara!
P.: Agora, Cego, me ouça:
Cantarei a paca já
Tema assim é um borrego
No bico de um carcará!
Quem a caca cara compra
Caca cara cacará!”
A peleja, neste vacilo de Zé Pretinho, é vencida por Aderaldo. Embora tenha se tradicionalizado, e muitos ainda a dêem por real, a Peleja, como foi exposto supra, é tão fictícia quanto o Zé Pretinho que nela apanha de Aderaldo, e que é confundido com o grande Zé Pretinho do Crato, criador do galope à beira-mar. Firmino Teixeira do Amaral, que o saudoso Professor Átila Almeida dá como cunhado do Cego Aderaldo, é ainda, conforme este autor, “o mais brilhante poeta popular que já deu o Piauí, um dos melhores do Nordeste”.
Raquel de Queirós acredita piamente que tal disputa poética ocorreu. Crê ainda que o Cego pelejou com Frankalino, transcrevendo como dele versos do mesmo e imortal Firmino. O poeta Antônio Américo de Medeiros, residente em Patos, Paraíba, colheu esta sextilha de um suposto encontro havido entre Aderaldo e Lampião, onde o menestrel louva o Rei do Cangaço:
“É esta a primeira vez
Que canto pra Lampião,
A maior autoridade
Que cruza todo o sertão,
Fazendo medo a alferes,
Tenente e capitão.”
Como boa parte da produção atribuída a Aderaldo, não se sabe se esta estrofe também pertence aos domínios da lenda. O fato é que Aderaldo foi uma grande alma, tendo adotado, em seus 85 anos de vida, vinte e seis meninos, inicialmente seus guias. Com o tempo, abandonou a prosaica rabeca e passou a trabalhar com um velho projetor de filmes. Quando morreu a 30 de junho de 1967, em Fortaleza, foi cantado e pranteado como um rei. Prova irrefutável que a lenda havia sido impressa com letras indeléveis no Livro da Imortalidade.
Notas:
Parte da famosa Peleja foi reaproveitada por João do Vale e Nara Leão e registrada no disco Opinião, de 1965.
A minissérie global Hoje é Dia de Maria também utilizou trechos do trava-língua da paca, com o qual a esperta Maria ludibria o demônio Asmodeu.
"Segundo entrevista do próprio Cego Aderaldo ele cegou da seguinte maneira: Chegou em casa meio dia em ponto com o corpo muito quente e tomou um copo de água fria, logo em seguida sua vista começou a escurecer… Durante toda a sua vida Aderaldo se questionou como um simples copo d’água podia cegar uma pessoa. Perguntei ao médico oftalmologista e cordelista Breno de Holanda se isso era possível, simplesmente ele não soube responder. Na verdade foi uma fatalidade. Aderaldo tinha muita vergonha de pedir esmola, fez uma promessa com São Francisco de Canindé para encontrar um meio de ganhar a vida sem precisar mendigar, à noite sonhou com inúmeras estrofes, daí então descobriu seu dom poético e não parou mais de cantar. " (Klévisson Viana)
Marco Haurélio declama trechos da famosa Peleja em evento. Crédito: Sidney
A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum é uma das obras-primas da Coleção Luzeiro: www.editoraluzeiro.com.br
Marco Haurélio é cordelista e pesquisador de cultura popular.
criado por marcohaurelio
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ARIEVALDO VIANA nasceu no Sertão Central do Ceará e foi alfabetizado por sua avó Alzira de Sousa Lima, em 1974, com o valioso auxílio dos folhetinhos de feira, hoje conhecidos como Literatura de Cordel. Desde criança exercita sua verve poética, tendo recebido, a princípio, as benéficas influências dos mestres Leandro Gomesde Barros e José Pacheco, dois pilares da poesia popular nordestina. 
A literatura de cordel que imperou no Nordeste, em fins do século XIX até o terceiro quartel do século XX, é, em linhas gerais, a poesia popular impressa e herdeira do romanceiro tradicional, da literatura oral (em especial dos contos populares, com predominância dos contos de encantamento). O cordel é um dos galhos da árvore da poesia popular, como o repente também o é. Mas cordel e repente não são a mesma coisa, pois, à medida que a árvore cresce, os galhos vão se distanciando, embora estejam unidos pela origem comum. 
