“Um Leandro, um Athayde nordestinos, compram no primeiro sebo uma gramática, uma geografia, ou um jornal do dia, compõem com isso um jornal de sabença, ou um romance trágico de amor, vivido no Recife. Isso é o Macunaíma e esses sou eu”. (Mário de Andrade)

Desenho de Arievaldo Viana
O paraibano Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918) é o maior clássico da poesia popular e uma das maiores glórias da cultura brasileira. Foi poeta prolífico e, embora muitos pesquisadores exagerem na estimativa de sua obra, sabe-se que ele legou à posteridade perto de um milhar de folhetos.
A pouca familiaridade com a gramática não lhe foi empecilho para escrever obras-primas, como Os Sofrimentos de Alzira, onde lemos esta estrofe adornada por belas antíteses, que revelam o trágico destino da protagonista:
Eu ficarei sobre um túmulo,
O senhor num paraíso;
Meus olhos gotejam lagrimas
Seus lábios brotarão riso.
No mais, aceite um adeus.
Até o dia do juízo!
Em O Cachorro dos Mortos, há a descrição de um crime passional do qual um cachorro é a única testemunha. No início do romance, Leandro deixa patente o seu respeito pela tradição (“antepassados”) e recorre a um expediente que se tornaria lugar-comum entre os poetas populares: o de ilustrar o prólogo da história com um adágio que remete ao motivo central. Vejamos:
Os nossos antepassados
Eram muito prevenidos
Diziam: - Mato tem olhos
E paredes têm ouvidos,
Os crimes são descobertos,
Por mais que sejam escondidos.
A Força do Amor, que narra as desventuras do casal Alonso e Marina, começa como uma lacrimosa história de amor e termina como um conto de horror digno de um Allan Poe. A sextilha abaixo, que fecha o romance, resume o clima sinistro criado pelo genial autor:
Na tumba de Montalvão
Ninguém mais pôde chegar
Porque à meia-noite em ponto
Se ouve um eco bradar
Gemer um, suspirar outro,
Outro a sorte praguejar!
Mas o estro de Leandro foi muito além da poesia dramática. Foi também um grande sátiro, e dois folhetos seus escritos neste gênero – O Poder do Dinheiro (O Dinheiro ou O Testamento do Cachorro) e O Cavalo que defecava Dinheiro – foram reaproveitados pelo mestre Ariano Suassuna no Auto da Compadecida. Por ora, citemos apenas sua grande criação, o grande burlão Cancão de Fogo, que chegou ao cordel antes de João Grilo, de quem é irmão gêmeo em peraltices. Cancão, que influenciou até Mário de Andrade na composição de seu Macunaíma, é o mais sardônico dos anti-heróis que o cordel já produziu. Na sextilha abaixo, um pouco de sua filosofia de vida:
Pai e mãe é muito bom,
Barriga cheia é melhor;
A doença é muito ruim,
Porém a morte é pior;
O poder de Deus é grande
Porém o mato é maior!
Mesmo na hora da morte, eis a resposta do endiabrado Cancão a um padre que o exorta ao arrependimento, pretextando livrá-lo dos tormentos do inferno. (É preciso atentar para o espírito crítico de Leandro que o diferencia de outros poetas do gênero, em especial a sua irreverência em relação à Igreja.)
Disse-lhe o Cancão de Fogo:
- Padre, eu quero que me dê
Explicação do inferno
Lhe peço como mercê
No inferno inda haverá
Um diabo como você?
Por estas e outras o grande bardo de Pombal e glória da Paraíba é insuperável. Em outras ocasiões voltaremos a falar dele.
*Marco Haurélio, baiano de Riacho de Santana, é poeta popular, pesquisador da sabença de nosso povo, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC -e selecionador de textos para publicação da Editora Luzeiro, a maior casa publicadora do cordel no Brasil. Ministra palestras e oficinas sobre literatura de cordel e é autor, entre outros, dos seguintes folhetos: A Idade do Diabo, Nordeste – Terra de Bravos, Serra do Ramalho, um Brasil que o Brasil Precisa Conhecer, História da Moura Torta, O Romance do Príncipe do Reino do Limo Verde e Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo.