CORDEL ATEMPORAL

Espaço para divulgação da Literatura de Cordel e da Cultura Popular Brasileira

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sertão: mítico, místico e sangrento

Quem entende o sertão como uma região de clima árido, onde a fome impera e a justiça, pelo menos a dos homens, não chega, precisa rever seus conceitos. O sertão é isso também, mas é muito mais…

Nasci no sertão. Terra carrascosa, com a caatinga predominando. Na frente da casa, a igreja de adobe, estilo barroco, construída pelo Major Ramiro, meu bisavô, que repousa nela.

Ao lado da casa de meu pai, ficava a de minha avó, parede e meia. Ao lado ainda, mas separada por um muro, a de tio Sátiro, enorme, mas que já conheci abandonada, ou melhor, habitada pelos morcegos. No quintal, um umbuzeiro, com o umbu mais azedo que alguém já comeu. Mais à frente, além da cerca ladeada por pés de pimenta de passarinho, outro umbuzeiro, com o melhor que já comi em minha vida. A natureza tem uma maneira estranha de compensar suas próprias deficiências. Andando mais, em direção à serra, outro umbuzeiro, o do Negro. Do Negro?

Contam os mais velhos que, “no tempo dos cativos”, um escravo foragido, depois de uma exaustiva caminhada entrou no mato e, extenuado, parou para descansar à sombra do umbuzeiro. Foi encontrado por seus perseguidores. Teria sido enforcado na própria árvore, onde seu espírito ainda paga penitência.

Sobre o umbuzeiro, ainda há o mito do gritador, metade menino, metade jegue, que marca ponto sob esta árvore ao meio-dia – quando os anjos dizem amém. Foi excomungado pela própria mãe, a quem caluniara para o pai, que a surrou, sem piedade. Convergência óbvia do mito do Romãozinho.

Pois bem, no fundo do quintal da casa de minha avó, D. Luzia, havia um buguevi – é assim que é chamado na região. Meu avô, Joaquim, afirmava ter visto, em noite clara, uma mulher com quem conversou, assegurando tratar-se de Nossa Senhora.

Em outros tempos, ainda solteiro, ele que era primogênito do Major Ramiro, a caminho de casa, defrontou-se com um sujeito, que estava embaixo duma árvore. Trocaram tiros e o sujeito fora aparentemente ferido.

— Pai, matei um homem…

O Major:

— Que se há de fazer? Vamos ver de quem se tratava.

Foram. Não acharam nada. Um dos acompanhantes pede mais detalhes do indivíduo.

Era Fulano de tal, esclareceu, morto já há muito tempo. Igualmente pagava penitência.

Dizem que as cobras têm o poder de encantar os caçadores, deixando-os desnorteados. Numa das caçadas que fazia, no alto da Serra Geral, meu avô imaginou ter matado uma cobra. Qual não foi sua surpresa quando viu que a mesma cobra estava em vários lugares ao mesmo tempo. Chegou em casa assustado, como nunca se assustara antes.

A casa em que nasci tinha fama de ser assombrada. Já era tarde da noite e meu pai não havia retornado. O querosene da candeia, no fim, deixava apenas um fiapo de luz. Minha mãe deitada ao nosso lado – eu meu irmão mais velho. Éramos os únicos à época –, ouviu um barulho estranho como batidas num bumbo. A casa escura de repente iluminou-se e, na parede, viam-se sombras que pareciam participar de um estranho festim. Nas sombras, movimentos lúbricos. A candeia apagou-se, mas o clarão não sumiu. Restou esconder a cabeça e rezar, rezar até que a “plantaforma” desaparecesse.

Major Ramiro era curador famoso. De vários lugares, alguns bem distantes, afluía gente que ansiava pelo fim de uma moléstia, do corpo ou da alma.

Isso foi há muito tempo. Ele morava no Barreiro, que é vizinho a Ponta da Serra. Era meia-noite e toda a família dormia. No sertão, antigamente, dormia-se muito cedo. A exceção era feita nas noites em que eram contadas estórias ou lidos os ABCs e folhetos do que hoje chamamos literatura de cordel. Pois bem, todos dormiam. De repente, alguém chama à porta:

— major Ramiro! Major Ramiro!

A voz não era estranha. Era um vizinho, do Brejinho.

— Já vai, Marcolino.

Não era o tal Marcolino. Quando o Major abriu a porta, deparou com um gato preto enorme, olhos de fogo, a própria besta-fera.

O bicho queria entrar. Buscar a alma dos que dormiam. O Major, armado da tranca, enfrentou o maldito. Rezou todas as rezas conhecidas. E ele conhecia muitas. O gato crescia e diminuía, a depender do “valor” da reza. Mas só quando começou o Credo, a oração imbatível, o esconjuro, o gato foi derrotado. Explodiu, deixando um cheiro de enxofre que resistiria muitos dias. Testemunho mal-cheiroso do embate que ali se travara.

Retalhos de histórias. Reminiscências do sertão-mundo.

Quem entende o sertão como uma região de clima árido, onde a fome impera e a justiça, pelo menos a dos homens, não chega, precisa rever seus conceitos.

criado por marcohaurelio    12:23:13 — Arquivado em: Sem categoria

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