CORDEL ATEMPORAL

Espaço para divulgação da Literatura de Cordel e da Cultura Popular Brasileira

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Cordel agita a Primavera Paulista

Marco Haurélio, João Gomes de Sá e Varneci comandam Sarau Poético na UNIFIG de Guarulhos

Cordelistas Varneci e Marco Haurélio ao lado dos professores Fábio, Maria de Loudes e Zélia da UNIFIG de Guarulhos

Painel reproduzindo a capa do folheto de cordel GALOPANDO O CAVALO PENSAMENTO, encenado pelos alunos do curso de Letras da UNIFIG.

Um grande público prestigiou a poesia popular na Praça da UNIFIG.

"A praça, a praça é do povo, / Como o céu é do cordor…" (Castro Alves)

criado por marcohaurelio    10:51:24 — Arquivado em: Sem categoria

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sertão: mítico, místico e sangrento

Quem entende o sertão como uma região de clima árido, onde a fome impera e a justiça, pelo menos a dos homens, não chega, precisa rever seus conceitos. O sertão é isso também, mas é muito mais…

Nasci no sertão. Terra carrascosa, com a caatinga predominando. Na frente da casa, a igreja de adobe, estilo barroco, construída pelo Major Ramiro, meu bisavô, que repousa nela.

Ao lado da casa de meu pai, ficava a de minha avó, parede e meia. Ao lado ainda, mas separada por um muro, a de tio Sátiro, enorme, mas que já conheci abandonada, ou melhor, habitada pelos morcegos. No quintal, um umbuzeiro, com o umbu mais azedo que alguém já comeu. Mais à frente, além da cerca ladeada por pés de pimenta de passarinho, outro umbuzeiro, com o melhor que já comi em minha vida. A natureza tem uma maneira estranha de compensar suas próprias deficiências. Andando mais, em direção à serra, outro umbuzeiro, o do Negro. Do Negro?

Contam os mais velhos que, “no tempo dos cativos”, um escravo foragido, depois de uma exaustiva caminhada entrou no mato e, extenuado, parou para descansar à sombra do umbuzeiro. Foi encontrado por seus perseguidores. Teria sido enforcado na própria árvore, onde seu espírito ainda paga penitência.

Sobre o umbuzeiro, ainda há o mito do gritador, metade menino, metade jegue, que marca ponto sob esta árvore ao meio-dia – quando os anjos dizem amém. Foi excomungado pela própria mãe, a quem caluniara para o pai, que a surrou, sem piedade. Convergência óbvia do mito do Romãozinho.

Pois bem, no fundo do quintal da casa de minha avó, D. Luzia, havia um buguevi – é assim que é chamado na região. Meu avô, Joaquim, afirmava ter visto, em noite clara, uma mulher com quem conversou, assegurando tratar-se de Nossa Senhora.

Em outros tempos, ainda solteiro, ele que era primogênito do Major Ramiro, a caminho de casa, defrontou-se com um sujeito, que estava embaixo duma árvore. Trocaram tiros e o sujeito fora aparentemente ferido.

— Pai, matei um homem…

O Major:

— Que se há de fazer? Vamos ver de quem se tratava.

Foram. Não acharam nada. Um dos acompanhantes pede mais detalhes do indivíduo.

Era Fulano de tal, esclareceu, morto já há muito tempo. Igualmente pagava penitência.

Dizem que as cobras têm o poder de encantar os caçadores, deixando-os desnorteados. Numa das caçadas que fazia, no alto da Serra Geral, meu avô imaginou ter matado uma cobra. Qual não foi sua surpresa quando viu que a mesma cobra estava em vários lugares ao mesmo tempo. Chegou em casa assustado, como nunca se assustara antes.

A casa em que nasci tinha fama de ser assombrada. Já era tarde da noite e meu pai não havia retornado. O querosene da candeia, no fim, deixava apenas um fiapo de luz. Minha mãe deitada ao nosso lado – eu meu irmão mais velho. Éramos os únicos à época –, ouviu um barulho estranho como batidas num bumbo. A casa escura de repente iluminou-se e, na parede, viam-se sombras que pareciam participar de um estranho festim. Nas sombras, movimentos lúbricos. A candeia apagou-se, mas o clarão não sumiu. Restou esconder a cabeça e rezar, rezar até que a “plantaforma” desaparecesse.

Major Ramiro era curador famoso. De vários lugares, alguns bem distantes, afluía gente que ansiava pelo fim de uma moléstia, do corpo ou da alma.

Isso foi há muito tempo. Ele morava no Barreiro, que é vizinho a Ponta da Serra. Era meia-noite e toda a família dormia. No sertão, antigamente, dormia-se muito cedo. A exceção era feita nas noites em que eram contadas estórias ou lidos os ABCs e folhetos do que hoje chamamos literatura de cordel. Pois bem, todos dormiam. De repente, alguém chama à porta:

— major Ramiro! Major Ramiro!

A voz não era estranha. Era um vizinho, do Brejinho.

— Já vai, Marcolino.

Não era o tal Marcolino. Quando o Major abriu a porta, deparou com um gato preto enorme, olhos de fogo, a própria besta-fera.

O bicho queria entrar. Buscar a alma dos que dormiam. O Major, armado da tranca, enfrentou o maldito. Rezou todas as rezas conhecidas. E ele conhecia muitas. O gato crescia e diminuía, a depender do “valor” da reza. Mas só quando começou o Credo, a oração imbatível, o esconjuro, o gato foi derrotado. Explodiu, deixando um cheiro de enxofre que resistiria muitos dias. Testemunho mal-cheiroso do embate que ali se travara.

Retalhos de histórias. Reminiscências do sertão-mundo.

Quem entende o sertão como uma região de clima árido, onde a fome impera e a justiça, pelo menos a dos homens, não chega, precisa rever seus conceitos.

criado por marcohaurelio    12:23:13 — Arquivado em: Sem categoria

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Memórias Póstumas de Brás Cubas em Cordel

A editora Nova Alexandria acaba de lançar o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas em Cordel, adaptação de Varneci Nascimento da obra-prima de Machado de Assis. O lançamento é a mais inusitada homenagem ao genial escritor fluminense no centenário de sua morte. As ilustrações são de Cristina Carnelós.

Algumas estrofes do Brás Cubas na recriação do poeta Varneci:

Com a pena da galhofa,
Tinta da melancolia,
Vou contar depois de morto
Como eu vivi um dia,
Cumprindo uma obrigação
Que para o mundo eu devia.

Para não ser trivial
Como fui quando vivi,
E por ser Memórias póstumas
De Brás Cubas, isto aqui,
Trata-se da minha história
Feita depois que morri.

Morte, que aconteceu
Na tarde de sexta-feira,
Às duas horas da tarde,
Foi a minha derradeira
Na Chácara de Catumbi,
Que vivi a vida inteira.

Era o século dezenove,
Agosto era o mês,
O ano sessenta e nove,
Idade, sessenta e três.
Com mais um, de onde estou,
Escrevo isso a vocês.

Cerca de trezentos contos
Era a soma de dinheiro
Deixada não sei pra quem,
Porque eu morri solteiro.
Apesar das aventuras,
Não deixei um só herdeiro.

Umas nove ou dez pessoas
Foram me acompanhar
Na derradeira viagem,
Para nunca mais voltar,
Sendo três da minha família,
Que nem era pra contar.

Foi uma pneumonia
Que a minha vida tirou,
Veio ajudada por uma
Idéia que fracassou,
Pois a tive, mas a mesma
De forma alguma vingou.

(…)

Varneci Nascimento é baiano de Banzaê e autor de O Massacre de Canudos e A Morte e a Justiça (Luzeiro).

Outro clássico de Machado, o conto O Alienista, também foi lançado pela Coleção Clássicos em Cordel, da mesma editora. De O Alienista, recriação do poeta cearense Rouxinol do Rinaré, falaremos numa outra oportunidade.

Mais informações:
www.novaalexandria.com.br  
Fone: (11) 2215 6252

criado por marcohaurelio    13:26:47 — Arquivado em: Sem categoria

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Marco Haurélio no VI Cordel na Cortez

Dunga, Francorli, Varneci, Klévisson, Marco Haurélio, Nireuda, Marilu e J. X. Cortez. Foto: Margarete Barbosa

A palestra A LITERATURA DE CORDEL: DO SERTÃO À SALA DE AULA, proferida por mim, Marco Haurélio, teve muitos ingredientes interessantes. As boas surpresas foram as presenças dos poetas Klévisson Viana e Varneci Nascimento, que emprestaram mais brilho à atividade.
Aproveito para agradecer ao sr. José Xavier Cortez e a Ednilson pela oportunidade de aprender mais um pouco com a permuta de experiência que marcou esse importante evento, que já faz parte do calendário cultural da Paulicéia.

criado por marcohaurelio    11:37:05 — Arquivado em: Sem categoria
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