CORDEL ATEMPORAL

Espaço para divulgação da Literatura de Cordel e da Cultura Popular Brasileira

sexta-feira, 30 de maio de 2008

LEANDRO, O GRANDE PIONEIRO

   “Um Leandro, um Athayde nordestinos, compram no primeiro sebo uma gramática, uma geografia, ou um jornal do dia, compõem com isso um jornal de sabença, ou um romance trágico de amor, vivido no Recife. Isso é o Macunaíma e esses sou eu”.                                 (Mário de Andrade)

Desenho de Arievaldo Viana

O paraibano Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918) é o maior clássico da poesia popular e uma das maiores glórias da cultura brasileira. Foi poeta prolífico e, embora muitos pesquisadores exagerem na estimativa de sua obra, sabe-se que ele legou à posteridade perto de um milhar de folhetos.

A pouca familiaridade com a gramática não lhe foi empecilho para escrever obras-primas, como Os Sofrimentos de Alzira, onde lemos esta estrofe adornada por belas antíteses, que revelam o trágico destino da protagonista:

Eu ficarei sobre um túmulo,
O senhor num paraíso;
Meus olhos gotejam lagrimas
Seus lábios brotarão riso.
No mais, aceite um adeus.
Até o dia do juízo!

Em O Cachorro dos Mortos, há a descrição de um crime passional do qual um cachorro é a única testemunha. No início do romance, Leandro deixa patente o seu respeito pela tradição (“antepassados”) e recorre a um expediente que se tornaria lugar-comum entre os poetas populares: o de ilustrar o prólogo da história com um adágio que remete ao motivo central. Vejamos:

Os nossos antepassados
Eram muito prevenidos
Diziam: - Mato tem olhos
E paredes têm ouvidos,
Os crimes são descobertos,
Por mais que sejam escondidos.

A Força do Amor, que narra as desventuras do casal Alonso e Marina, começa como uma lacrimosa história de amor e termina como um conto de horror digno de um Allan Poe. A sextilha abaixo, que fecha o romance, resume o clima sinistro criado pelo genial autor:

Na tumba de Montalvão
Ninguém mais pôde chegar
Porque à meia-noite em ponto
Se ouve um eco bradar
Gemer um, suspirar outro,
Outro a sorte praguejar!

Mas o estro de Leandro foi muito além da poesia dramática. Foi também um grande sátiro, e dois folhetos seus escritos neste gênero – O Poder do Dinheiro (O Dinheiro ou O Testamento do Cachorro) e O Cavalo que defecava Dinheiro – foram reaproveitados pelo mestre Ariano Suassuna no Auto da Compadecida. Por ora, citemos apenas sua grande criação, o grande burlão Cancão de Fogo, que chegou ao cordel antes de João Grilo, de quem é irmão gêmeo em peraltices. Cancão, que influenciou até Mário de Andrade na composição de seu Macunaíma, é o mais sardônico dos anti-heróis que o cordel já produziu. Na sextilha abaixo, um pouco de sua filosofia de vida:

Pai e mãe é muito bom,
Barriga cheia é melhor;
A doença é muito ruim,
Porém a morte é pior;
O poder de Deus é grande
Porém o mato é maior!

Mesmo na hora da morte, eis a resposta do endiabrado Cancão a um padre que o exorta ao arrependimento, pretextando livrá-lo dos tormentos do inferno. (É preciso atentar para o espírito crítico de Leandro que o diferencia de outros poetas do gênero, em especial a sua irreverência em relação à Igreja.)

Disse-lhe o Cancão de Fogo:
- Padre, eu quero que me dê
Explicação do inferno
Lhe peço como mercê
No inferno inda haverá
Um diabo como você?

Por estas e outras o grande bardo de Pombal e glória da Paraíba é insuperável. Em outras ocasiões voltaremos a falar dele.

*Marco Haurélio, baiano de Riacho de Santana, é poeta popular, pesquisador da sabença de nosso povo, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC -e selecionador de textos para publicação da Editora Luzeiro, a maior casa publicadora do cordel no Brasil. Ministra palestras e oficinas sobre literatura de cordel e é autor, entre outros, dos seguintes folhetos: A Idade do Diabo, Nordeste – Terra de Bravos, Serra do Ramalho, um Brasil que o Brasil Precisa Conhecer, História da Moura Torta, O Romance do Príncipe do Reino do Limo Verde e Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo
        

criado por marcohaurelio    17:38:42 — Arquivado em: folclore

quarta-feira, 21 de maio de 2008

CATÁLOGO DE CORDEL DA EDITORA LUZEIRO

Catálogo da Editora Luzeiro

Peça por telefone, e-mail ou carta:
Rua Dr. Nogueira Martins, 538 – Saúde – São Paulo – SP
CEP: 04143-020
TEL/FAX: (11) 5585-1800
www.editoraluzeiro.com.br  
e-mail: vendas@editoraluzeiro.com.br  

ABC dos Namorados, do Amor do Beijo e da Dança
A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás
A Briga de Dois Matutos por Causa de um Jumento
A Chegada de Lampião no Céu

 
A Chegada de Lampião no Inferno
A Chegada de Lampião no Purgatório
A Confissão de Antônio Silvino
A Coragem de Juquinha pelo Amor de Ivonete
A Coragem de um Vaqueiro em Defesa do Amor
A Duquesa de Sodoma
A Escrava do Destino
A Fera de Petrolina
A Filha da Louca do Jardim
A Filha de um Pirata entre a Espada e a Sorte
A Força do Amor, a Morte de Alonso e a Vingança de Marina
A História de Belisfronte, o Filho do Pescador
A Intriga do Cachorro com o Gato
A Lagoa Misteriosa e o Cavalo Encantado
A Louca do Jardim
A Luta de Zé do Caixão com o Diabo
A Moça que se Casou 14 Vezes e Continuou Donzela
A Morte de Leandro. Saudades…
A Morte, o Testamento e o Enterro de João Grilo
A Mulher que Enganou o Diabo
A Mulher que se Casou 18 vezes
A Mulher Roubada
A Noiva do Diabo
A Princesa Anabela e a Filha do Lenhador
A Princesa Rosinha na Cova dos Ladrões
A Promessa da Vingança
A Segunda Vida de Cancão de Fogo
A Sorte do Amor
A Traição de Dalila e a Força de Sansão
A Triste Sorte de Jovelina
A Vaca Misteriosa
A Verdadeira História de Chico Xavier
A Vida de um Nordestino em São Paulo
A Vingança de um Inocente
A Vingança de uma Fada e um Anão Misterioso
A Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira
A Vitória do Príncipe Roldão no Reino do Pensamento
A Volta de Lampião ao Inferno
Amor de Mãe
Amor e Martírio de uma Escrava
Amor em Face do Destino
Amor entre a Verdade e o Punhal
Amor que venceu a morte
Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos
Antônio Silvino – Vida, Crimes e Julgamento
As Astúcias de Camões
As Aventuras de João Desmantelado
As Perguntas do Rei e as Respostas de Camões/ As Palhaçadas de Pedro Malazarte
Aventuras de Simbá, o Marujo
Briga de São Pedro com Jesus por Causa do Inverno
Carta de Satanás a Roberto Carlos
Celeiro Poético
Chicuca, o Professor dos Ladrões
Cidrão e Helena/ João Besta e a Jia da lagoa
Coco Verde e Melancia
Como Ser Feliz no Casamento
Daniel e seus amigos disputando uma Princesa
Dimas e Madalena nos Labirintos da Sorte
Disputa de Bocage com um Padre
Encontro de Lampião com Adão no Paraíso
Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malazarte
Encontro do Pres. Tancredo com o Pres. Getúlio Vargas no céu
Enfrentando a Morte
Festa da Bicharada
Grinaura e Sebastião
Helena, a Virgem dos Sonhos
História da Donzela Teodora
História da Princesa da Pedra Fina
História da Princesa Rosamunda ou a Morte do Gigante
História de Geraldo e Silvina
História de João da Cruz
História de Mariquinha e José de Souza Leão
História de Três Cavalos Encantados e Três Irmãos Camponeses

História de Valdemar e Irene
História de Vicente e Josina
História de Zezinho e Mariquinha
História do Bicho de Sete Cabeças
História do Boi Leitão
História do Boi Misterioso
História do Bom Pai e Mau Filho
História do Gigante Quebra – Osso e o Castelo Mal Assombrado
História do Menino dos Bodinhos e a Princesa Interesseira
História do Príncipe Formoso
História do Valentão do Mundo
História do Valente João Acaba – Mundo e a Serpente Negra
História do Valente Sertanejo Zé Garcia
História do Valente Vilela
História do Vaqueiro Damião
História, Vida e Morte Luiz Gonzaga – Os Maiores Sucessos
Horácio e Enedina entre o Amor e o Orgulho
Já Bebi, Não Bebo Mais! Bebo Até Lascar o cano
Jerônimo, o Grande Herói do Sertão
Jesus Cristo e o Mestre dos Mestres
Jesus e o Homem do Surrão Misterioso

Joana D’Arc a Heroína da França
João Soldado o Valente Praça que Meteu o Diabo num Saco
João Terrível e o Dragão Vermelho
João Valente e a Montanha Maldita
Josafá e Marieta
Juvenal e o Dragão
Lágrimas de Amor
Lampião e Maria Bonita no Paraíso
Lampião e Padre Cícero num Debate Inteligente
Lampião e sua História Contada Toda em Cordel
Lampião, o Rei do Cangaço
Manassés e Marili entre a Luta e o Amor

Maria Bonita a Mulher do Cangaço
Martim Tomba Serra e o Gigante do Deserto
Nequinho e Jandira
Novas Proezas de Bocage
O Cachorro dos Mortos
O Cangaceiro Isaías
O Cangaceiro do Nordeste
O Capitão do Navio
O Cavaleiro das Flores
O Comprador de Barulho
O Contador de Mentira
O Encontro de Cancão de Fogo com Vicente o Rei dos Ladrões
O Encontro de Lampião com Dioguinho
O Enjeitado de Orion
O Encontro de Lampião com Saturnino no Inferno
O Escravo Fiel
O Exemplo do Menino que Falou no Ventre da Mãe
O Ferreiro das Três Idades
O Filho de Evangelista do Pavão Misterioso
O Filho de Juvenal e a Serpente de Fogo
O Filho do Herói João de Calais
O Grande Combate de Neve Branca com João Cabeleira
O Grande Debate de Camões com um Sábio
O Grande Debate de Lampião com São Pedro
O Herói da Montanha Negra
O Herói João Canguçu
O Jogador na Igreja
O Lobisomem Encantado
O Massacre de Canudos
O Menino das Abelhas e a Formiga Encantada
O Mistério dos Três Anéis
O Monstro sem Alma
O Mofino que virou Valente
O Negrão do Paraná e o Seringueiro do Norte
O Neto de José de Souza Leão
O Pai que forçou a Filha na Sexta Feira da Paixão
O Pavão Misterioso
O Pistoleiro Invencível
O Prêmio da consciência
O Presidente Tancredo a Esperança que não Morre
O Príncipe Enterrado Vivo e a rainha Justiceira
O Príncipe João - sem - Medo e a Princesa da Ilha dos Diamantes
O Príncipe Natan e o Cavalo Mandingueiro
O Prisioneiro no Castelo da Rocha Negra
O Quengo de Pedro Malazarte no Fazendeiro

 

Os Cabras de Lampião
Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho
Peleja de Azulão com Palmeirinha

Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo
Proezas de Broca da Silveira
Proezas de João Grilo
E muito mais…

Preços especiais para revendedores e distribuidores.
MAIS TÍTULOS:
http://recantodasletras.uol.com.br/cordel/156109  

criado por marcohaurelio    17:39:28 — Arquivado em: Sem categoria

MÚSICA DA BOA NA REDE

Todos sabem do bloqueio levantado pela mídia gorda para pasteurizar toda a produção e o saber cultural, reduzindo-os a uma forma única, grotesca e, em muitos casos pornográfica. Mas não é que esse bloqueio está sendo furado!

As grandes gravadoras multinacionais assistem, no dia-a-dia, cair vertiginosamente seu faturamento em decorrência do uso das novas tecnologias, em especial da internet. Ou seja, "eles são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram", como dizia Raul Seixas.

Reafirmando o que eu disse, chegou-me este "emeio", do meu amigo, o cantor e cordelista Carlos Silva, que, com grande satisfação, abaixo reproduzo.

Este é o estúdio de gravação do nosso programa Feito em Casa.
exibido todos os Sábados a partir das 14:00 horas.
www.kerotv.com.br  

Um programa de musica e muita informação cultural.
O FEITO EM CASA antes de ser um programa de tv pela net, é o formato do show que apresentamos nas noites paulistanas.
Se houver interesse, leve esse show pra sua cidade, seu evento enfim…

Marco Mendes
Lucy
Claudia Zen
Ciço do Crato
Carlos Silva e convidados.

 

criado por marcohaurelio    09:11:34 — Arquivado em: Sem categoria

terça-feira, 20 de maio de 2008

CLÁSSICOS EM CORDEL NO SALÃO DO LIVRO NO RIO

Os dois livros da Coleção Clássicos em Cordel estarão à venda no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro. Os livros integram o estande da Editora Nova Alexandria.

Os Miseráveis, adaptação do cordelista e ilustrador Klévisson Viana do romance de Victor Hugo, narra as aventuras de Jean Valjean, um dos mais belos personagens da literatura universal.

O Corcunda de Notre-Dame, de João Gomes de Sá, também adaptado a partir de um romance do grande escritor francês, é a história de Quasimudo (Quasímodo no original), o corcunda da Catedral de Santana, pequena cidade do interior nordestino.

Os dois livros são magistralmente ilustrados pela dupla Murilo e Cíntia.

10º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens
Local: MAM – Museu de Arte Moderna
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 Parque do Flamengo RJ • Tel: (21) 2240-4944
Data: De 21 de maio a 1º de junho de 2008
Horário: Segunda a sexta, das 8h30 às 18h; sábados, domingos e feriado, das 10h às 20h.
Ingresso: R$ 3,00 (gratuidade para maiores de 65 anos, portadores de deficiência e professores da Rede Municipal de Ensino)

FNLIJ • Tel.: (21) 2262-9130 / www.fnlij.org.br  

criado por marcohaurelio    12:45:17 — Arquivado em: Sem categoria

segunda-feira, 19 de maio de 2008

LANÇAMENTO: A AMBIÇÃO DE MACBETH

NOVO LIVRO DE ARIEVALDO VIANA E JÔ OLIVEIRA

LANÇAMENTO: No Salão do Livro do Rio de Janeiro.
Será na próxima quarta-feira dia 21, às 12 horas em ponto.
O Salão do Livro está montado no pátio do Museu de Arte Moderna, MAM,
no centro do Rio de Janeiro, ao lado do aeroporto Santos Dumont.
Presença de JÔ OLIVEIRA e do presidente da ACADEMIA BRASILEIRA DE LITERATURA DE CORDEL, poeta GONÇALO FERREIRA.

A AMBIÇÃO DE MACBETH
E A MALDADE FEMININA

Autor: Arievaldo Viana

Ilustrações: Jô Oliveira

(Livre adaptação da obra MACBETH, de William Shakespeare)

Drama contundente, onde a ambição de um homem aparentemente bom e justo e a maldade cega de uma perversa mulher os conduzem à perdição. Saiba como o ser humano pode ser levado a cometer maldades por causa de ambições e emoções ocultas dentro de si. Bravura! Feitiçaria! Ambição! Traição e morte!

De Eva, a primeira mãe,
Nasceu toda perdição;
Tentada pela serpente,
Persuadiu a Adão
E fê-lo comer do fruto
Que nos trouxe a maldição.

A beleza das mulheres
E seu carinho materno
São os dotes mais perfeitos
Que lhes deu o Pai Eterno,
Mas a perfídia de algumas
Pode levar ao inferno.

Estudiosos de hoje
Têm outro ponto de vista,
Alegam que as escrituras
Possuem um teor machista
E que essa visão é própria
De um porco chauvinista.

Porém, deixando de lado
Nossa Sagrada Escritura,
Peguemos, pois, outro exemplo
Na pagã literatura:
O drama de Macbeth,
Realidade mais pura.

O livro é mais um lançamento da Cortez Editora, que este ano promoverá a sexta edição do CORDEL NA CORTEZ. http://www.cortezeditora.com.br/

criado por marcohaurelio    10:03:56 — Arquivado em: Sem categoria

quinta-feira, 15 de maio de 2008

ELE É O CEGO ADERALDO!

O Cego Aderaldo, personagem da mitologia nordestina, deve a um folheto de cordel muito do seu prestígio lendário. Aderaldo Ferreira de Araújo não nasceu cego. Perdeu as “vistas” aos dezoito anos, num desastre de trem na estrada de Baturité. Era o maquinista. A partir daí adotou a profissão errante dos aedos. Nesta condição o folclorista Leonardo Mota o encontra em princípios dos anos de 1920. E anota a partir de depoimento de Aderaldo a versão para a sua cegueira. Ao citar algumas estrofes do velho trovador Luiz Dantas Quesado, que davam conta de coisas impossíveis, Mota ouviu e anotou estas duas estrofes, imaginando-as saídas da cachola de Aderaldo:

“Só nos falta vê agora
Dá carrapato em farinha,
Cobra com bicho-de-pé,
Foice metida em bainha,
Caçote criá bigode,
Tarrafa feita sem linha.

Muito breve há de se vê
Pisá-se vento em pilão,
Botá freio em Caranguejo,
Fazê de gelo carvão,
Carregá água em balaio,
Burro subi em balão”.

Mota com Jacó Passarinho e Aderaldo (com a rabeca)

Impressionado, Mota depõe em Cantadores (1921): “Se o cantador cego Aderaldo foi, inquestionavelmente, o de melhor voz de quantos com quem hei tratado, está, ainda, entre os de mais apreciável veia poética Estas duas estrofes, contudo, segundo o poeta popular Arievaldo, são de Leandro Gomes de Barros, do folheto O Galo Mysterioso, Marido da Galinha de Dentes, reeditado pela Editora Queima-Bucha de Mossoró.
Entretanto, é ao poeta de bancada Firmino Teixeira do Amaral que Aderaldo deve boa parte da fama amealhada. A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, dada por muitos como acontecida, foi composta por Firmino, então funcionário da Editora Guajarina, de Belém do Pará, antes de 1920, pois já é citada no livro de Leonardo Mota, pelo cantador cearense Jacó Passarinho. Estão nesta peleja os impagáveis trava-línguas que a memória coletiva absorveu. Os cantadores são indicados por letras iniciais de seus nomes de guerra. Aderaldo:A; Zé Pretinho: P. Então, vamos às amostras:

“P.: Eu vou mudar de toada
Pra uma que mete medo -
Nunca encontrei cantador
Que desmanchasse este enredo:
É um dedo, é um dado, é um dia
É um dia, é um dado, é um dedo!

C.: Zé Preto, este teu enredo
Te serve de zombaria:
Tu hoje cegas de raiva
E o diabo será teu guia -
É um dia é um dedo, é um dado
É um dado, é um dedo, é um dia!

P. : Cego, respondeste bem,
Como quem fosse estudado!
Eu, também, da minha parte,
Canto versos aprumado –
É um dado, é um dia, é um dedo,
É um dedo, é um dia, é um dado!

C.: Vamos lá, seu Zé Pretinho,
Porque eu já perdi o medo:
Sou bravo como um leão,
Sou forte como um penedo -
É um dedo, é um dado, é um dia
É um dia, é um dado, é um dedo!”

Zé Pretinho, pra sua infelicidade, pede, então, a Aderaldo que puxe uma bela toada. E o Cego se sai com esta:

“C.: Amigo José Pretinho,
Eu nem sei o que será
De você depois da luta -
Você vencido já está!
Quem a paca cara compra
Paca cara pagará!

P.: Cego, eu estou apertado
Que só um pinto no ovo!
Estás cantando aprumado
E satisfazendo o povo -
Mas esse tema da paca
Por favor, diga de novo!

C.: Disse uma vez, digo dez -
No cantar não tenho pompa
Presentemente, não acho
Quem o meu mapa me rompa -
Pagará a paca cara
Quem a paca cara compra!

P.: Cego, teu peito é de aço,
Foi bom ferreiro que fez -
Não pensei que cego tinha
No verso tal rapidez!
Cego, se não for maçada,
Repete a paca outra vez!

C.: Arre! Que tanta pergunta
Desse preto Capivara!
Não há quem cuspa pra cima
Que não lhe caia na cara -
Quem a paca cara compra
Pagará a paca cara!

P.: Agora, Cego, me ouça:
Cantarei a paca já
Tema assim é um borrego
No bico de um carcará!
Quem a caca cara compra
Caca cara cacará!”

A peleja, neste vacilo de Zé Pretinho, é vencida por Aderaldo. Embora tenha se tradicionalizado, e muitos ainda a dêem por real, a Peleja, como foi exposto supra, é tão fictícia quanto o Zé Pretinho que nela apanha de Aderaldo, e que é confundido com o grande Zé Pretinho do Crato, criador do galope à beira-mar. Firmino Teixeira do Amaral, que o saudoso Professor Átila Almeida dá como cunhado do Cego Aderaldo, é ainda, conforme este autor, “o mais brilhante poeta popular que já deu o Piauí, um dos melhores do Nordeste”.
Raquel de Queirós acredita piamente que tal disputa poética ocorreu. Crê ainda que o Cego pelejou com Frankalino, transcrevendo como dele versos do mesmo e imortal Firmino. O poeta Antônio Américo de Medeiros, residente em Patos, Paraíba, colheu esta sextilha de um suposto encontro havido entre Aderaldo e Lampião, onde o menestrel louva o Rei do Cangaço:

“É esta a primeira vez
Que canto pra Lampião,
A maior autoridade
Que cruza todo o sertão,
Fazendo medo a alferes,
Tenente e capitão.”

Como boa parte da produção atribuída a Aderaldo, não se sabe se esta estrofe também pertence aos domínios da lenda. O fato é que Aderaldo foi uma grande alma, tendo adotado, em seus 85 anos de vida, vinte e seis meninos, inicialmente seus guias. Com o tempo, abandonou a prosaica rabeca e passou a trabalhar com um velho projetor de filmes. Quando morreu a 30 de junho de 1967, em Fortaleza, foi cantado e pranteado como um rei. Prova irrefutável que a lenda havia sido impressa com letras indeléveis no Livro da Imortalidade.

Notas:

Parte da famosa Peleja foi reaproveitada por João do Vale e Nara Leão e registrada no disco Opinião, de 1965.

A minissérie global Hoje é Dia de Maria também utilizou trechos do trava-língua da paca, com o qual a esperta Maria ludibria o demônio Asmodeu.

"Segundo entrevista do próprio Cego Aderaldo ele cegou da seguinte maneira: Chegou em casa meio dia em ponto com o corpo muito quente e tomou um copo de água fria, logo em seguida sua vista começou a escurecer… Durante toda a sua vida Aderaldo se questionou como um simples copo d’água podia cegar uma pessoa. Perguntei ao médico oftalmologista e cordelista Breno de Holanda se isso era possível, simplesmente ele não soube responder. Na verdade foi uma fatalidade. Aderaldo tinha muita vergonha de pedir esmola, fez uma promessa com São Francisco de Canindé para encontrar um meio de ganhar a vida sem precisar mendigar, à noite sonhou com inúmeras estrofes, daí então descobriu seu dom poético e não parou mais de cantar. " (Klévisson Viana)

Marco Haurélio declama trechos da famosa Peleja em evento. Crédito: Sidney

A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum é uma das obras-primas da Coleção Luzeiro: www.editoraluzeiro.com.br  

Marco Haurélio é cordelista e pesquisador de cultura popular.

criado por marcohaurelio    11:35:20 — Arquivado em: Sem categoria

quarta-feira, 14 de maio de 2008

MOREIRA DE ACOPIARA LANÇA LIVRO NA CULTURA

O poeta cearense Moreira de Acopiara, gentilmente, enviou-me este convite, referente ao lançamento do livro CORDEL EM ARTE E VERSOS, pela editora Duna Dueto, com xilogravuras de Erivaldo. Aproveito e repasso a todos os amantes da Literatura de Cordel.

Vamos lá?!

Moreira de Acopiara
Rua dos Jasmins, 148, casa 2
09950-460
Diadema/ SP
(11) 4072-2749 / 9201-7961

criado por marcohaurelio    09:24:55 — Arquivado em: Sem categoria

terça-feira, 13 de maio de 2008

COSTA SENNA RECEBE TÍTULO DE CIDADÃO PAULISTANO

Recebi, de Júbilo Jacobino, a mensagem que se segue, referente à concessão do título de Cidadão Paulistano ao Poeta popular cearense Costa Senna. Para a ocasião, foi escrito um cordel que conta com a participação de vários poetas glosando o mote

FINALMENTE SÃO PAULO RECONHECE

O VALOR DO ARTISTA COSTA SENNA.

Amigos, é com muita honra que venho convidá-los para a Sessão Solene de entrega do Título de Cidadão Paulistano ao cantor e poeta popular Costa Senna, por iniciativa do Vereador Beto Custódio. Será no dia 16/05/2008, 6ª feira, às 19 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo - Palácio Anchieta - Viaduto Jacareí, 100 - 8º andar - Bela Vista - São Paulo - SP.
Além da presença de artistas e autoridades teremos várias apresentações musicais e um coquetel de confraternização.
Sua presença levará muita alegria ao nosso amigo e estimado poeta Costa Senna.

Júbilo Jacobino
membro da comissão organizadora


Contatos com Júbilo Jacobino (produção):
jubilojacobino@gmail.com  
Fones: (11) 2272-5079 e (11) 9609-2258
http://myspace.com/jubilojacobino  

Contatos com o cantor e poeta popular Costa Senna:
costasenna@gmail.com  
Fones: (11) 6552-2443 e (11) 9448-2049
http://myspace.com/costasenna

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Peça teatral trata de cordel e ecologia

 

O maranhense Assis Coimbra (na foto com a zabumba), radicado em Ribeirão Pires, é autor, ator e mestre da cultura. Manipulador de bonecos, brincante de Boi Maranhense, Assis não nega as origens.

Atualmente, está em cartaz a peça baseada no cordel de sua autoria, ECORDEL, TEATRO MUSICAL EM VERSO E PROSA, que adverte sobre os riscos decorrentes da má utilização dos recursos naturais. A iniciativa é promovida pela Cooperativa paulista de Teatro  e pelo grupo Narradores de Cordel. É apoiada pela Via Brasil Automóveis e pela Dura Brasil, grandes incentivadoras das atividadea culturais.

Mais informações:

Assis Coimbra
Fone: (11) 4828 6783 (residencial)
(11) 9748 1292 (celular)
E-mail: assis.coimbra@yahoo.com.br

 

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Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://cordelatemporal.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.