CORDEL ATEMPORAL

Espaço para divulgação da Literatura de Cordel e da Cultura Popular Brasileira

segunda-feira, 14 de abril de 2008

LEANDRO E A CARNAÚBA

Vale a pena reler esse texto do poeta popular e folclorista cearense Arievaldo Viana sobre o maior autor da literatura de cordel em todos os tempos, Leandro Gomes de Barros.

LEANDRO E A CARNAÚBA

O escritor HUMBERTO DE CAMPOS plantou um pé de cajueiro e fez disso o norte de seu livro de memórias. Eu planei um pé de CARNAÚBA. Dirão vocês que um cajueiro é mais útil. Eu diria que uma carnaubeira é muito mais bonita. Imponente. Palhas abertas ao vento, lembrando o fole de um acordeón. Planta do sertão. Tudo a ver comigo. Humberto vivia em Parnaíba, cidade que o Piauí “tomou” do Ceará, impingindo de volta um Crateús muito do mal ajambrado. Hoje, abri as janelas do meu escritório para ver a chuva banhar a minha pequena carnaubeira e me lembrei… Ela viverá dois séculos, se nenhum fela-da-gaita (descendente ou não) inventar de cortá-la. Eu fico por aqui até o dia que Deus quiser. Amém!

A CHUVA é o alento maior do povo nordestino e eu, cabra véi nascido e amamentado na fazenda Ouro Preto, recanto que já foi Quixeramobim e hoje pertence ao município de Madalena, pleno Sertão Central do Estado, vivo aqui nessa diáspora metropolitana lembrando todos os dias dos meus avós, do meu gadinho de osso, da ova de curimatã e das palhas do pé de Carnaúba na beira do riacho vermelho. Aquilo sim, era vida.

O serrote dos Três Irmãos era o cenário. Dizia o velho Chico Pavio que aquilo eram três reinos encantados e que havia um dragão escondido no sopé do Olho D’água das Coronhas, onde eu ia buscar água com meu pai nos primeiros anos de minha vida. O autor de meus dias cantava trechos da ‘Batalha de Oliveiros com Ferrabrás’. Eu pensava no banho gostoso e demorado no açude dos Calixtos. “Eram doze cavaleiros/Homens fortes destemidos…”. Leandro Gomes de Barros, o autor, povoava a minha infância pela voz de meu pai. Seria melhor se ele cantasse “Juvenal e o Dragão”, que também sabe de cor. Rompe-ferro, nosso cachorro de estimação, teve seu nome extraído de um folheto de Leandro. Olho para ele, fiel e abnegado e me lembro do “Cachorro dos Mortos”. Eu, por minha vez, era o próprio Cancão de Fogo escanchado na cangalha do jumento, atento à natureza, à poesia e ao cenário.

Sinto o cheiro da chuva que acabou de cair. A carnaubeira está exultante, plena de verde e de vigor. Eu fico por aqui, até o dia em que Deus for servido. Mas o mestre Leandro viverá mais alguns séculos, pela sua poesia vigorosa e forte como o meu pezinho de carnaúba, pelo seu pioneirismo e, sobretudo, por sua indiscutível genialidade. Estou aqui, igual a chuva que acabou de cair, regando a obra do mestre.

Arievaldo Viana

http://fotolog.terra.com.br/acorda_cordel:122

 

criado por marcohaurelio    11:27:39 — Arquivado em: Sem categoria

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